Os 10 erros que arruínam o seu abastecimento durante a corrida: os princípios científicos para otimizar a sua estratégia nutricional

Numa prova de resistência, o desempenho não depende apenas da condição física, do nível de treino ou do equipamento utilizado. A capacidade de manter uma ingestão energética adequada ao longo de todo o esforço constitui um fator determinante, sobretudo quando a duração ultrapassa os 90 minutos.
Durante um esforço prolongado, vários fatores limitam progressivamente o desempenho: diminuição das reservas de glicogénio muscular e hepático, desidratação, perturbação do equilíbrio eletrolítico, fadiga central e aparecimento de problemas gastrointestinais.
Ainda assim, muitos atletas de resistência comprometem o seu desempenho não por falta de treino, mas devido a uma estratégia de abastecimento mal dominada: ingestão insuficiente de hidratos de carbono, má tolerância digestiva, ausência de planeamento ou utilização inadequada de produtos energéticos.
A nutrição em competição não deve, portanto, deixar nada ao acaso. Deve ser individualizada, testada durante o treino e adaptada às exigências fisiológicas do esforço.
Eis os 10 erros mais frequentes que podem limitar o seu desempenho no dia da prova.
1. Começar a alimentar-se demasiado tarde: o erro do «abastecimento de emergência»

Um dos erros mais frequentes consiste em esperar pelos primeiros sinais de fadiga antes de consumir hidratos de carbono.
Quando surge a sensação de quebra de energia, a situação metabólica já está degradada: a glicemia pode diminuir, as reservas de glicogénio são fortemente mobilizadas e a capacidade de manter a intensidade diminui.
Durante um esforço prolongado, o cérebro depende fortemente da glicose circulante. Uma diminuição da disponibilidade de hidratos de carbono aumenta a perceção do esforço e pode provocar uma redução involuntária da intensidade.
Estratégia recomendada
Começar a ingerir hidratos de carbono desde as primeiras fases do esforço, geralmente após 20 a 30 minutos, consoante a intensidade e a duração prevista.
O objetivo não é corrigir um défice energético, mas prevenir o seu aparecimento.
2. Subestimar as necessidades de hidratos de carbono
Os hidratos de carbono representam o principal substrato energético durante esforços de intensidade moderada a elevada.
As recomendações atuais evoluíram consideravelmente: as estratégias modernas já não se limitam a evitar a «quebra de energia», procurando antes maximizar a disponibilidade energética durante o esforço.
As recomendações de consenso indicam:
- 30 a 60 g de hidratos de carbono/hora para esforços de 1 a 2h30;
- 60 a 90 g/h para esforços prolongados;
- até 120 g/h em atletas especificamente treinados para ingestões elevadas.
Este aumento é possível graças à utilização de diferentes transportadores intestinais:
- a glicose utiliza principalmente o transportador SGLT1;
- a frutose utiliza o GLUT5.
A associação de glicose e frutose permite assim aumentar a oxidação exógena dos hidratos de carbono e ultrapassar os limites de absorção de um único tipo de açúcar.
Erro frequente
Consumir apenas um gel por hora durante um ultra, quando o organismo por vezes necessita de duas a três vezes mais energia.
3. Negligenciar o treino digestivo ("gut training")

O sistema digestivo não é um fator fixo: adapta-se às exigências que lhe são impostas.
Muitos atletas limitam a ingestão durante o treino por receio de perturbações digestivas e depois tentam aumentar significativamente o consumo no dia da competição.
Esta abordagem é contraproducente.
O treino digestivo permite, nomeadamente:
- melhorar o esvaziamento gástrico;
- aumentar a capacidade de absorção intestinal;
- melhorar a tolerância a ingestões elevadas de hidratos de carbono.
Aplicação prática
Testar progressivamente a ingestão durante os treinos longos:
- aumentar a quantidade de hidratos de carbono por hora;
- variar as texturas;
- reproduzir as condições da corrida.
4. Escolher um produto energético sem ter em conta a sua composição
Nem todos os géis energéticos respondem às mesmas necessidades.
A escolha deve depender:
- da duração do esforço;
- da intensidade;
- da tolerância digestiva;
- da necessidade, ou não, de cafeína.
Algumas diferenças:
Gel principalmente à base de glicose/maltodextrina
Vantagem:
- assimilação rápida;
- boa disponibilidade energética.
Gel de glicose-frutose
Vantagem:
- maior capacidade de absorção;
- interessante em esforços prolongados.
Gel com cafeína
Vantagem:
- possível melhoria do estado de alerta;
- redução da perceção do esforço.
Mas a cafeína deve ser testada, pois a resposta individual varia bastante.
5. Beber apenas água durante esforços prolongados

A água é indispensável, mas não substitui os eletrólitos perdidos no suor.
O sódio desempenha várias funções:
- manutenção do volume plasmático;
- equilíbrio hídrico;
- transmissão nervosa;
- contração muscular.
O consumo excessivo de água pobre em sódio durante esforços prolongados pode contribuir para o desenvolvimento de hiponatremia associada ao exercício.
A estratégia correta
Adaptar a ingestão de líquidos de acordo com:
- a sua taxa de transpiração;
- a temperatura;
- a duração da corrida;
- a concentração de sódio do seu suor.
6. Consumir demasiadas fibras, lípidos ou proteínas antes e durante o esforço
Durante um esforço intenso, o fluxo sanguíneo digestivo diminui para privilegiar os músculos e a termorregulação.
Alguns alimentos tornam-se então mais difíceis de digerir:
- alimentos ricos em fibras;
- refeições muito gordurosas;
- quantidades significativas de proteínas.
Isto aumenta o risco de:
- inchaço;
- refluxo;
- dores abdominais;
- diarreia.
Antes da corrida
Dar preferência a:
- hidratos de carbono de fácil digestão;
- baixo teor de fibras;
- baixa quantidade de lípidos.
7. Não adaptar a estratégia às condições ambientais

A mesma estratégia nutricional não funciona em todas as condições.
O calor provoca:
- aumento do fluxo sanguíneo cutâneo;
- aumento da transpiração;
- aceleração da desidratação;
- diminuição da tolerância digestiva.
Na montanha, a altitude também pode alterar a perceção do esforço e as necessidades energéticas.
O abastecimento deve, portanto, adaptar-se em função de:
- temperatura;
- humidade;
- altitude;
- duração prevista.
8. Copiar a estratégia de um atleta de elite
A estratégia nutricional de um atleta profissional baseia-se frequentemente em:
- um volume de treino elevado;
- uma adaptação digestiva específica;
- uma massa corporal diferente;
- anos de experimentação.
Um corredor amador não tem necessariamente as mesmas necessidades nem a mesma tolerância.
A melhor estratégia é aquela que corresponde à sua fisiologia.
9. Não quantificar o que ingere
Um erro frequente é funcionar apenas «por instinto».
No entanto, dois géis podem representar aportes muito diferentes consoante a sua composição.
Para progredir, é útil conhecer:
- gramas de hidratos de carbono consumidos por hora;
- quantidade de líquidos consumida;
- quantidade de sódio ingerida;
- tolerância digestiva.
Esta abordagem permite aperfeiçoar progressivamente a estratégia.
10. Esquecer a recuperação imediatamente após a corrida
O abastecimento não termina ao passar a linha de chegada.
Após um esforço prolongado, o objetivo é:
Repor o glicogénio
As primeiras horas após o esforço representam um período favorável à ressíntese do glicogénio muscular.
Favorecer a reparação muscular
Uma ingestão de proteínas com aminoácidos essenciais suficientes favorece a síntese proteica muscular.
As recomendações gerais situam-se aproximadamente em:
- 20 a 40 g de proteínas após o esforço, de acordo com o porte físico e a carga de treino.
Conclusão
Uma estratégia de abastecimento eficaz não é uma simples sucessão de géis e bebidas energéticas. É uma verdadeira estratégia fisiológica destinada a manter a disponibilidade energética, limitar a desidratação, preservar o conforto digestivo e otimizar a recuperação.
Os melhores desempenhos são frequentemente alcançados graças aos pormenores: começar a ingerir nutrientes suficientemente cedo, atingir uma quantidade adequada de hidratos de carbono por hora, treinar o sistema digestivo e personalizar a estratégia de acordo com as próprias limitações.
Tal como o treino, a nutrição para a competição prepara-se várias semanas antes do objetivo. No dia da corrida, já não se deve experimentar: é preciso aplicar uma estratégia previamente validada.