« Food & Mood »: a « nutri-psiquiatria » acrescenta um toque científico à alimentação reconfortante
O campo emergente da psiquiatria nutricional acrescenta um toque científico à ideia de que a comida pode ter um efeito positivo no nosso humor. Quais são os ingredientes mais promissores e até que ponto os consumidores estão recetivos?
A emergência da psiquiatria nutricional
O "Food & Mood Center" da Universidade de Deakin, na Austrália, é um centro de investigação especializado no campo emergente da psiquiatria nutricional. Embora o conceito de alimentação de conforto mostre como as pessoas compreendem intuitivamente a ligação entre a alimentação e o humor, a ciência está apenas agora a conseguir acompanhar, segundo a Dra. Sarah R. Dash, investigadora na área da nutrição e membro honorária do centro.
"[...] estudos realizados em Espanha, na Noruega, na Austrália e nos Estados Unidos mostraram todos que seguir um regime alimentar saudável e "tradicional", composto por alimentos que sabemos serem bons para nós — fruta e legumes coloridos, cereais integrais, leguminosas e gorduras saudáveis — protege a saúde mental", escreve a Dra. Dash. "A má notícia, que talvez não seja surpreendente, é que o inverso também parece ser verdade: os alimentos pouco saudáveis e processados não são apenas prejudiciais para a nossa cintura ou para o nosso coração, mas também para a nossa saúde mental".
O Food & Mood Center dá cinco conselhos alimentares simples às pessoas que pretendem gerir a sua saúde mental através da alimentação.
Aconselha:
- seguir regimes alimentares "tradicionais", como os regimes mediterrânico, nórdico ou japonês;
- aumentar o consumo de fruta, legumes, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e sementes;
- limitar o consumo de alimentos ultraprocessados;
- comer alimentos nutritivos e saudáveis em todas as refeições e lanches,
- começar "pequeno" para obter mudanças duradouras.
O público nunca esteve tão consciente das ligações entre determinados alimentos e o stress, o relaxamento e o sono. Apesar deste interesse, inúmeras empresas não conseguiram comercializar produtos alimentares que proporcionassem benefícios para o humor ao longo dos últimos dez anos.
Os 5 desafios para desenvolver novos produtos!
Segundo Julian Mellentin, fundador da empresa de consultoria para a indústria alimentar New Nutrition Business, as marcas alimentares enfrentam um grande desafio, pois têm de encontrar um ingrediente que cumpra cinco critérios específicos.
- o ingrediente em questão deve ser legal;
- , os fabricantes devem ser autorizados a utilizá-lo numa dose suficiente para proporcionar o benefício prometido;
- deve ter um bom sabor;
- os consumidores também devem sentir um benefício tangível;
- e, por fim, deve fazer «sentido» no produto.
«Os grãos de café num snack-bar ou numa bebida serão fáceis de aceitar, mas algo menos comum, como a L-teanina, não passará este teste», explica Mellentin.
Existem, no entanto, alguns exemplos de sucesso, incluindo o «chocolate GABA para o equilíbrio mental» da empresa japonesa de confeitaria Ezaki Glico, que ajuda a reduzir o stress. Lançada em 2005, a barra de chocolate contém 280 mg de ácido gama-aminobutírico (GABA) por 100 g, cerca de 25 vezes mais do que os 9 mg do chocolate normal, e a marca gera cerca de 50 milhões de dólares (45 milhões de euros) em vendas anuais a retalho.
A curto prazo, serão os alimentos considerados pelos consumidores como «estimulantes naturais do humor» que continuarão a ser os mais benéficos, juntamente com algumas das tendências das «dietas sem...», todas elas impulsionadas por um novo conjunto de estudos científicos que apoia a «nutri-psiquiatria».
Os fabricantes que pretendam tirar partido das tendências das «dietas de eliminação» podem reduzir o teor de açúcar e de hidratos de carbono dos seus produtos, concentrando-se simultaneamente no seu perfil de processamento mínimo.
Paralelamente, podem também centrar-se nos «estimulantes naturais do humor» estabelecidos, que contêm gorduras saudáveis, como os ómega-3 (presentes no peixe, nas nozes, nas sementes e nos abacates), e em alimentos amigos do intestino (produtos fermentados, como o kefir, o kombucha e os probióticos).
Aplicação dos resultados aos alimentos embalados
Os nootrópicos, substâncias que se diz melhorarem as funções cognitivas ou o desempenho mental em pessoas saudáveis, e que são mais frequentemente utilizados para estimular a memória, a concentração e a criatividade, também despertam o interesse dos consumidores, com fontes naturais como as vitaminas B, os ómega-3, a cafeína, o triptofano, a L-teanina e o óleo de CBD.
O Food & Mood Center da Universidade de Deakin não recomenda explicitamente a escolha de um snack nootrópico embalado para a saúde cognitiva.
Ainda assim, estes produtos poderiam ser benéficos se tivessem uma lista simples de ingredientes alimentares integrais ou se fossem enriquecidos com nutrientes adicionados, como polifenóis?
Um estudo publicado em 2016 mostrou que as mulheres que seguem uma alimentação rica em vários tipos de flavonoides, um grupo específico de polifenóis presentes em alimentos como laranjas, frutos vermelhos e cacau, apresentam um menor risco de depressão.
Segundo Helena Gibson-Moore, especialista em nutrição da British Nutrition Foundation, isso poderá ser possível.
«Para além do sabor, da aparência e do preço, os consumidores esperam cada vez mais que os alimentos que comemos sejam considerados “saudáveis” e preferem produtos “naturais” a produtos “processados”», explica à Fi Global Insights. «Como os consumidores podem estar mais conscientes dos benefícios para a saúde associados ao consumo de polifenóis, o enriquecimento dos alimentos com polifenóis poderá ser bem recebido».
Contudo, a Sra. Gibson-Moore manifesta também preocupação com a ideia de enriquecer alimentos processados com alguns componentes saudáveis selecionados, uma vez que as pessoas podem optar por substituir alimentos integrais saudáveis, como frutas e legumes, por produtos embalados. Mesmo que estes produtos processados tenham sido formulados para apresentar um perfil nutricional saudável, os ingredientes podem não proporcionar alguns dos benefícios resultantes de uma alimentação saudável, como o consumo de fibras ou de outros nutrientes e compostos bioativos potencialmente interativos na matriz alimentar, acrescenta.
A importância das alegações cientificamente fundamentadas
Em todo o caso, as marcas que comercializam produtos «Food for mood» devem investir na investigação científica para fundamentar as suas alegações.
A marca neozelandesa Ārepamakes produz uma bebida nootrópica à base de groselha-negra da Nova Zelândia (a que chama «neurobagas»), rica em polifenóis e antocianinas, e de chá verde, fonte do aminoácido L-teanina.
A start-up passou mais de cinco anos a desenvolver a fórmula e afirma que, se os consumidores têm dúvidas sobre a ciência por detrás da bebida, isso se deve aos anos de marketing enganoso por parte da «Big Food».
«Sabíamos que, quando começámos, iríamos enfrentar algum ceticismo devido ao marketing enganoso das multinacionais que vendem cafeína e açúcar como a solução ideal para otimizar o desempenho cognitivo», explica. «Por isso, continuamos a investigar, testar e desenvolver a nossa fórmula, utilizando simultaneamente tecnologia alimentar de ponta para garantir a eficácia dos nossos produtos».
Atualmente, trabalha com a Escola de Psicologia da Universidade de Auckland para avaliar o desempenho neurocognitivo e a atividade das ondas cerebrais da bebida Ārepaaffects no âmbito de um ensaio cruzado, aleatorizado e controlado por placebo.
Embora seja um nicho e uma área emergente, a categoria dos «alimentos para melhorar o humor» já está a despertar o interesse dos grandes intervenientes. A Mondelez, por exemplo, investiu na marca de prebióticos Uplift Foods, cujo suplemento alimentar em pó «psicobiótico» contém fibras e amido resistente provenientes de farinha de banana verde, tupinambo, tapioca e tremoço. Segundo o site da empresa, 90% da serotonina, a hormona «que melhora o humor», encontra-se no intestino, o que realça a importância da ligação entre o intestino e o humor.
Mas isso já nós sabíamos...
Inspirado e traduzido de:
Stephanie Mulligan | 22 de outubro de 2020 em https://insights.figlobal.com
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