Como adaptar a alimentação quando estão mais de 30 °C?
O verão é uma época ideal para acumular quilómetros de bicicleta, correr na montanha ou preparar os grandes desafios do regresso às aulas. Mas quando o termómetro ultrapassa os 30 °C, as exigências fisiológicas alteram-se consideravelmente. O corpo tem não só de fornecer energia para sustentar o esforço, mas também de mobilizar recursos importantes para manter a temperatura interna.
Este aumento do stress térmico provoca uma transpiração mais intensa, uma maior perda de água e eletrólitos, uma diminuição do apetite e, em alguns desportistas, um risco mais elevado de perturbações digestivas ou de quebra de desempenho.
A boa notícia é que, adaptando a alimentação e a hidratação antes, durante e depois do esforço, é possível limitar estes efeitos e continuar a ter um bom desempenho, mesmo quando as condições são particularmente quentes.
Porque é que o calor altera as suas necessidades nutricionais?

Durante um exercício realizado com tempo quente, o fluxo sanguíneo é mais direcionado para a pele, de modo a evacuar o calor através da transpiração. Esta adaptação é indispensável para manter a temperatura corporal, mas reduz temporariamente a irrigação do sistema digestivo.
Consequências:
- uma digestão mais lenta;
- um risco acrescido de náuseas ou perturbações digestivas;
- um aumento das perdas de água;
- uma perda significativa de sódio e de outros eletrólitos;
- uma sensação de fadiga mais precoce.
Em alguns desportistas, as perdas de suor podem ultrapassar 1 a 2 litros por hora, ou até mais, consoante as condições ambientais e o nível de treino.
Antes do esforço: preparar o organismo
Quando as temperaturas são elevadas, a preparação começa várias horas antes da partida.

Apostar numa boa hidratação
O objetivo não é beber grandes quantidades mesmo antes de partir, mas chegar à partida já bem hidratado.
Alguns conselhos:
- beber regularmente ao longo do dia ou na véspera da corrida;
- privilegiar a água e as bebidas pouco açucaradas;
- verificar a cor da urina: uma cor amarelo-clara é geralmente sinal de uma boa hidratação.
Escolher uma refeição fácil de digerir
Antes de um treino longo ou de uma competição, dê preferência a:
- hidratos de carbono fáceis de digerir (arroz, massa, batatas, pão);
- uma fonte de proteínas magras;
- poucas gorduras;
- poucas fibras se o esforço for intenso.
Em contrapartida, as refeições muito ricas, picantes ou particularmente gordurosas podem aumentar o risco de desconforto digestivo.
Durante o esforço: adaptar a ingestão
O calor altera a forma como o corpo utiliza os nutrientes.

Beber regularmente
Esperar até ter sede é muitas vezes demasiado tarde.
Uma estratégia consiste em beber pequenas quantidades a cada 10 a 20 minutos, adaptando o volume à taxa de transpiração. É possível fazer testes de sudação ou, como solução mais simples, pesar-se antes e depois do treino para saber quanta água foi perdida.
As recomendações gerais situam as necessidades entre 400 e 800 mL por hora, mas alguns atletas precisarão de mais.
Não esquecer o sódio
A transpiração elimina principalmente:
- sódio;
- cloreto;
- quantidades menores de potássio, magnésio e cálcio.
Quando o esforço ultrapassa uma hora, sobretudo com calor intenso, uma bebida que contenha sódio permite geralmente compensar melhor as perdas do que apenas água.
Adaptar os hidratos de carbono
O calor por vezes abranda o esvaziamento gástrico e diminui a tolerância digestiva.
Nestas condições, pode ser interessante dar preferência a:
- bebidas energéticas;
- géis acompanhados de água;
- purés ou compotas energéticas;
- ingestões mais frequentes, mas em menor quantidade.
As recomendações atuais sugerem geralmente:
- 30 a 60 g de hidratos de carbono por hora para esforços de 1 a 2 h 30;
- 60 a 90 g/h para esforços prolongados, podendo chegar a 120 g/h em alguns atletas treinados que utilizam misturas de glucose e frutose e que treinaram o sistema digestivo.
Após o esforço: recuperar eficazmente
A recuperação é particularmente importante após um exercício realizado sob calor intenso.
Reconstituir as reservas hídricas
A melhor estratégia consiste em repor progressivamente as perdas de água. Uma bebida que contenha algum sódio também facilita a retenção de líquidos.
Repor as reservas de glicogénio
Nas horas seguintes ao esforço, dê prioridade a:
- hidratos de carbono de qualidade;
- fruta;
- féculas;
- bebidas de recuperação, se necessário.
Favorecer a reparação muscular
Associar 20 a 30 g de proteínas de elevada qualidade nas duas horas seguintes ao exercício favorece a recuperação muscular e a síntese proteica.
Adaptar a estratégia em função da temperatura
| Temperatura | Hidratação | Conselhos nutricionais |
|---|---|---|
| 20–25 °C | Beber regularmente de acordo com a sede e as perdas | Ingestão habitual de hidratos de carbono |
| 25–30 °C | Aumentar ligeiramente a ingestão de líquidos e controlar o sódio | Fracionar mais as refeições |
| Mais de 30 °C | Hidratação muito regular com eletrólitos | Dar prioridade a alimentos fáceis de digerir, bebidas energéticas e géis bem tolerados |
Os erros mais frequentes
Quando as temperaturas ultrapassam os 30 °C, alguns erros repetem-se regularmente:
- esperar até ter sede para beber;
- beber apenas água durante várias horas de esforço;
- consumir refeições demasiado pesadas antes da partida;
- experimentar um gel novo no dia da competição;
- negligenciar a recuperação após a sessão.
Em resumo
Quando a temperatura ultrapassa os 30 °C, a prioridade já não é apenas fornecer energia suficiente: é também ajudar o organismo a manter o equilíbrio hídrico e térmico. Uma hidratação regular, uma ingestão adequada de sódio, hidratos de carbono bem tolerados e uma recuperação cuidada permitem limitar os efeitos do calor no desempenho.
Tal como no treino, a estratégia nutricional deve ser personalizada. Testar a alimentação durante o treino, conhecer a taxa de transpiração e ajustar progressivamente a ingestão são as melhores formas de abordar os treinos de verão e as competições com toda a tranquilidade.